que se gastaram a propósito das declarações do José Saramago, tenho a dizer que não acho que valha a pena tanto desgaste. O senhor disse o que disse e está dito. Não me sinto minimamente atingida ou incomodada pelas suas palavras. Tem direito à sua opinião. Vale o que vale. O que me incomoda é a forma como disse. A arrogância e a falta de tolerância, essas sim, incomodam-me e muito. Venha de onde vier. Venha de Saramago, de Mário David ou do senhor da mercearia. Mas ainda assim, acho que não vale a pena tanto desgaste. As palavras de Saramago foram levadas demasiado a sério – afinal, são apenas reflexo das ideias de um homem.
Quanto a mim própria, confessa admiradora da sua obra, irrito-me solenemente com os comentários que tenho ouvido - mimos do género ‘como é que consegues ler coisas de um homem tão intragável?’. Acredito que o homem seja intragável e arrogante e intolerante e mais o que for, mas escreve bem. É um escritor extraordinário – talvez por isso, tenha ganho o Nobel da literatura… A meu ver, homem e artista não coincidem inteiramente: claro que tem de haver espaços de íntima união, mas nunca uma associação completa; claro que o pensamento pessoal do homem acaba sempre por se intrometer na obra, mas o que é a obra senão (quase pura) ficção?
Seja como for, cada um gosta do que gosta e acabou. Há muitas coisas que detesto e não ando por aí a combater. Por isso, por favor, não macem com as perguntas do costume. Gosto de ler Saramago porque sim, porque revejo nele qualidade.